Autismo

Abordagem Biopsicológica do Comportamento

O Autismo

Joana Valente

1.  Introdução

O autismo foi descrito a primeira vez em 1943, pelo médico Leo Kanner, no seu artigo Austic disturbance of affective contact, na revista Nervous Child. No mesmo ano também o austríaco Hans Asperger descreveu, na sua tese de doutoramento, a psicopatia autista da infância. Embora ambos fossem austríacos, devido à 2ªGerra Mundial não se conheciam. (Ortiz, 2005)

A criação da palavra autismo deve-se a Eugene Bleuler, em 1911, para descrever um sintoma da esquizofrenia que definiu como sendo uma “fuga da realidade”. Kanner e Asperger usaram a palavra para atribuir nome aos sintomas que observavam nos seus pacientes.

Nos anos de 1950 e 1960, o psicólogo Bruno Bettelheim afirmou que a causa do autismo seria a indiferença da mãe, que denominou de “mãe geladeira”. Nos anos 1070 essa teoria foi rejeitada e começaram-se a pesquisar as causas do autismo.

Actualmente, sabe-se que o autismo está ligado a causas genéticas associadas a causas ambientais. Dentre as possíveis causas ambientais, a contaminação por mercúrio presente nas vacinas tem sido apontada como forte candidata, assim como problemas de gestação. Outros problemas como infecção por cândida, contaminação por alumínio e chumbo também devem ser considerados.

Não obstante o grande número de pesquisas e investigações clínicas realizadas em diferentes áreas e abordagens de trabalho, não se pode dizer que o autismo é um transtorno claramente definido. Há correntes teóricas que apontam as alterações comportamentais nos primeiros anos de vida, normalmente até aos três anos, como relevantes para definir o transtorno, mas hoje têm-se fortes indicações de que o autismo seja um transtorno orgânico.

Entretanto não se negligencia o facto de que é necessário cuidar destas crianças o quanto antes, inserindo-as num tratamento que tenha em consideração a sua subjectividade, os seus afectos e sentimentos, e não unicamente o espectro comportamental.

Assim, o autismo é um transtorno estático do desenvolvimento neurológico que persiste toda a vida e que inclui uma ampla margem alterações conductuais; afecta ente 1 a 2/1000 pessoas e varia muito quanto à sua severidade, sendo as suas causas múltiplas e sendo a genética que joga um papel maior. (Ortiz, 2005)

“ É hoje geralmente aceite que as perturbações incluídas no espectro do autismo, Perturbações Globais do desenvolvimento nos sistemas de classificação correntes internacionais, são perturbações neuropsiquiátricas que apresentam uma grande variedade de representações clínicas e resultam de disfunções do desenvolvimento do sistema nervoso central multifactoriais (Descrição do Autismo, Autism-Europe, 2000).

São muitos os estudos que tem vindo a ser desenvolvidos na tentativa de contribuir para a definição de autismo contudo, muito há ainda a investigar para combater a indefinição relativa à sua etiologia.

São múltiplas as teorias que pretendem esclarecer as perturbações do espectro do autismo. Contudo, se por um lado se encontram as teorias comportamentais, que “(…)tentam explicar os sintomas característicos desta perturbação com base nos mecanismos psicológicos e cognitivos subjacentes(…)”, sob outra perspectiva, encontram-se as teorias neurológicas e fisiológicas que “(…) tentam fornecer informação acerca de uma possível base neurológica (Marques, 1998,p.43). Mas, embora invistam “(…) em áreas tão diversificadas, mais que um conflito existente entre elas como que uma complementaridade que por certo vai permitir uma identificação cada vez mais clara e operacional da explicação etiológica.” Como refere Marques (1998,p.43).

Da consulta bibliográfica efectuada foram encontradas várias teorias que procuram explicar o problema da etiologia ou causa do quadro clínico do Autismo, no entanto, serão apenas abordadas algumas das hipóteses que mostraram ser mais relevantes relativamente à importância das investigações e os avanços que proporcionaram no contexto desta temática.

Destas salientam-se as Teorias Psicogenéticas, as Teorias Biológicas, as Teorias Psicológicas, as Teorias Afectivas e as Teorias Cognitivas na perspectiva de Ballone (2002), Bosa e Callias (2000); Marques (1998) Marques (2002) e Pereira (1996).Contudo, Borges (2000) e Lippi (2005) consideram que as teorias mais recentes que fornecem um maior esclarecimento do ponto de vista do diagnóstico são: A Teoria Afectiva e a Teoria Cognitiva. (J.Rogel-Ortiz, 2005)

Em suma, as causas do autismo são indubitavelmente diversas e reflectem a diversidade das pessoas com autismo: parecem haver genes candidatos, isto é uma predisposição para o autismo.

2. Perspectivas sobre a Etiologia do Autismo

A etiologia do autismo ainda não foi definida. Com os avanços no domínio da neurocirurgia, algumas investigações sugerem que não existe um dano físico no sistema nervoso central que desempenhe um papel primário no seu aparecimento. Existem sim factores genéticos e ambientais que são considerados como determinantes, embora a maioria dos autores aponte, actualmente, para a multicausalidade. Assim, foram sugerindo diversas teorias que valorizam diferentes aspectos, destacando-se as Psicogenéticas, as Biológicas, as Psicológicas, as Afectivas e as Cognitivas. Estas duas últimas referidas são as que actualmente possuem maior relevância e destaque. (J.Rogel-Ortiz, 2005)

Muitos estudos têm vindo a ser desenvolvidos na tentativa de contribuir para a definição de autismo contudo, existe ainda um longo caminho a traçar neste campo.

São múltiplas as teorias que tentam esclarecer as perturbações do espectro do autismo, de entres as quais são de salientar as seguintes:

2.1.Teorias psicogenéticas

Já Kanner em 1943 considerou o autismo como uma perturbação do desenvolvimento constitucionalmente determinada, sugerindo a possibilidade de existência de uma componente genética que com passar do tempo se revelou correcta, contudo, foi o próprio quem especulou relativamente à possibilidade dos pais contribuírem para o distúrbio. ( Baso &Callias 200, Pereira,1996,Zuleta,1998; Marques, 1998).

Esta perspectiva fundamenta-se nas teorias psicanalíticas e defendem que as crianças autistas eram normais no momento do nascimento, mas que, devido a factores familiares ( pais frios e pouco expressivos) o desenvolvimento afectivo das crianças era afectado, provocando um quadro autista.

Segundo Marques (1998,p.44), Kanner “Considerou que as singularidades psicológicas  dos pais das crianças autistas se traduziam em relações distorcidas e patológicas com os seus filhos, e estavam na origem da síndrome autista, e além disso interpretava o autismo predominantemente como uma perturbação emocional.”

Posteriormente, nas décadas de  50 e 60, começa a  entender-se que o distúrbio emocional correspondia a uma resposta desadaptativa  frente a um ambiente que não favorável, mais do que um défice inato. ( Marques, 1998; Borges, 2000) Ainda nessa ordem de ideias, Eisenberg considerava como uma reacção à relação parental, pelo que segundo este, a criança poderia estar a responder ao tratamento mecânico, frio e obsessivo recebido por parte destes, , como referem Bossia e Callias (2000).

A maioria dos estudos desta época partilhou esta visão de acontecimentos , contudo, só na década de 70 surgiram outros estudos que se contrapunham aos resultados até então obtidos. Um dos aspectos prende-se com a análise de crianças que eram vítimas de maus tratos, bem como actos de negligência em que se verificou que as experiências por estas crianças não determinavam quadros de autismo.

Não se devendo descorar o facto de que esta leitura psicanalítica tenha trazido contributos para a análise da etiologia do autismo, certo é, que actualmente se considera que a mesma trouxe efeitos nefastos  para as famílias destas crianças  que carregavam a culpa de serem os autores de tais alterações nos filhos.

Uma outra crítica apresentada por Borges (2000) e Pereira 1996) dirige-se para o pormenor de que a maioria dos investigadores desta abordagem se limitava a observar as relações entre os pais e as crianças após estar instalada a perturbação pelo que, se tornavam incapazes de eliminar empírica e logicamente, a realidade de que a frieza e rejeição apresentadas pela criança, poderiam estar relacionadas com uma falta de resposta muito precoce da criança à atenção dos pais. Além disso, existem outros investigadores que referem que não existe suporte empírico para a noção de que o autismo seja originado pelos padrões das interacções familiares desviantes. Werner em 1967, também não conseguiu identificar progressos nas competências comunicacionais das crianças autistas submetidas a uma orientação psicanalítica ( Marques, 1998, p. 47).

Deste modo, na génese do autismo vários autores têm constatado que o défice cognitivo assume um papel crucial. Além disso, com os avanços nas técnicas de estudo do cérebro tem-se assistido a um aumento progressivo no seu desenvolvimento. (Borges,2000).

2.2.Teorias Biológicas

As investigações posteriores, que dizem respeito às perturbações do espectro do autismo, revelaram indícios de que nesta perturbação existiria uma origem neurológica de base. Partindo das hipóteses psicogenéticas, um dos primeiros argumentos que pretendeu derrubar as mesmas encontrava-se relacionado com o facto de que as crianças autistas  possuem grande probabilidade de vir a sofrer de epilepsia ( a incidência aumenta com a infância e adolescência) (Pereira,1996; Marques ,1998).

Em 1967 os estudos de follow-up efectuados, e em 1973estudos realizados  por De Mayer e colaboradores, pretenderam indicar a existência de uma perturbação neurológica (Marques 1998), em situações em que esta não estivesse ainda completamente identificada, pelo que lhes coube o mérito de começarem  a identificarem o papel da componente genética do autismo, mesmo que actualmente ainda não haja certezas quanto ao papel que os genes desempenham no aparecimento da perturbação.

Através de vários estudos, verificou-se  que ao nível da distribuição por géneros, o autismo é quatro vezes mais comum nos rapazes que nas raparigas, e esta relação eleva-se para 5:1 se  considerar o espectro autista na sua totalidade.

Dos relatos existentes, constata-se a associação do autismo com vários distúrbios biológicos (incluindo paralisia cerebral, rubéola pré-natal, toxopalasmose, infecções por citomagalovírus, encefalopatia, esclerose tuberculosa, meningite, hemorragia cerebral, fenilcetonúria, e vários tipos de epilepsia.), e partindo destas concepções,actualmente aceita-se que o autismo resulta de uma perturbação de determinadas áreas do sistema nervoso central, que afectam a linguagem, o desenvolvimento cognitivo e intelectual e a capacidade em estabelecer relações, segundo descrevem vários autores.

Os avanços acerca do estudo cerebral, deram lugar ao desenvolvimento progressivo de estudos biológicos deste distúrbio, que têm vindo a alterar as teorias etiológicas.”Estes estudos incidem em áreas diversas como a genética, com estudos sobre famílias de gémeos, na neurofisiologia com estudos sobre a disfunção cortical e subcortical, na neuroquímica com estudos sobre os neurotransmissores e os péptidos, os estudos metabólicos, os factores imunológicos e complicações pré-natais, péri e pós-natais. “(Marques ,1998).

2.3-Teorias Psicológicas

Ainda que o autismo seja definido em termos comportamentais, certo é que nos últimos 30 anos se tem assistido à primazia das características cognitivas sobrepondo-se aos sintomas afectivos e comportamentais. Rimland, em 1964, desenvolveu uma dessas primeiras teorias na qual pretendeu verificar se as crianças com autismo falhavam na associação dos estímulos recebidos com a memória como resultado de experiências anteriores.

Contudo, só em trabalhos de Hermelin e O’Conner deram o impulso definitivo nestas investigações, pretendendo identificar o défice cognitivo básico subjacente às alterações fundamentais no autismo ( Lippi, 2005). Na perspectiva destes autores, os autistas armazenavam as informações verbais de forma neutra, sem as analisar, atribuir significado ou reestruturar, pelo que os seus estudos lhe permitiram evidenciar uma das deficiências mais importantes e específicas do autismo, que é a incapacidade de avaliar a ordem e a estrutura e de reutilizar a informação (Pereira, 1996). “Os autistas são assim, incapazes de extrair regras ou de estruturar experiências tanto nos domínios verbal como não verbal, o que torna compreensível a sua notória dificuldade em realizar tarefas orientadas por leis complexas como a linguagem e as interacções sociais (Happé in Marques, 1998, p.60).

A atenção dada aos factores cognitivos era sustentada pelo facto de que nos autistas, o nível de inteligência, em conjunto com a presença de linguagem comunicativa, é um dos melhores indicadores de prognóstico, sendo um preditor da evolução funcional da criança.

Além disso foram também encontrados padrões de disfunção cognitiva em crianças normais ou com atraso mental com o mesmo nível de desenvolvimento. Estas constatações permitam considerar que as crianças com défices cognitivos, que se encontarm desde os estados precoces do seu desenvolvimento. Sob esta perspectiva, as alterações sociais seriam devidas a falhas cognitivas na incompreensão linguística ( Borges, 2000; Pereira, 1996), esta hipótese estimulou a pesquisa de uma patologia encefélica, sobretudo ao nível das funções linguísticas. Assim, esta patologia poderia ser atribuída  quer a uma disfunção dos dois hemisférios, quer a uma disfunção do corpo caloso ou do tronco cerebral ( Trevarthen,1996 in Marques, 1998).

Pelos anos 80 surge a Teoria da Mente que possui como autores Uta Firth, Alan Leslie e Baron Cohen. Segundo esta teoria a tríade de incapacidades comportamentais presentes no autismo era resultado de um ipedimento da comptência humana fundamental de “ler a mente dos outros”, pelo que pretenderam identificar os níveis fundamentais responsáveis pelos défices sociais no autismo, como falha no mecanismo mental de “metacognição”, aquelo que coordena o “pensar acerca do pensamento” como é referido por Baron-Cohen(1990). A Teoria da mente significa a capacidade para atribuir estados mentais a outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destas atribuições.

Posteriormente surgiram teorias alternativas que suportam a probabilidade de implicação de outros défices, tais como: Teoria da Coerência central, Função executiva, Problemas de Atenção etc.

2.4.Teorias Afectivas

A tese de Kanner de que crianças com autismo sofreriam de uma inabilidade inata de se relacionarem emocionalmente com outras pessoas foi retomada por Hobson em 1993. A teoria afectiva sugere que o autismo, origina-se a partir de uma disfunção primária do sistema afectivo, qual seja, uma inabilidade inata básica para interagir emocionalmente com os outros, o que levaria a uma falha no reconhecimento de estados mentais e a um prejuízo na habilidade para abstrair e simbolizar.

Várias hipóteses dentro desta teoria foram testadas, apresentando todas uma característica comum, a atribuição dos défices sociais em autismo a dificuldades em modular tanto a informação sensorial quanto a experiência perceptiva. Dessa forma, o “retraimento” autista tem sido explicado em termos de um estado de excitação crónico ou flutuações nesses estados, que conduzem a evitar o olhar, reacções negativas e retraimento da interacção social, como mecanismos para controlar o excesso de estimulação( Lippi,2005).

2.5.Teorias Cognitivas

Ritve, em 1976, tornou-se um dos autores pioneiros a considerar a síndrome autística como uma desordem do desenvolvimento causada por uma patologia do sistema nervoso central, bem como, a salientar a importência dos défices cognitivos do autismo.(Borges, 2000).

De modo sintético, no decorrer de mais de 50 anos, os estudos, dos artigos de L Kanner , no final com seu colega  L. Eisenberg permite-nos afirmar que:

a)      A descrição semiológica do autismo infantil precoce não sofreu modificações ao longo dos anos;

b)      A concepção do quadro enquanto síndrome passa de uma etapa inicial psicopatológica a uma síndrome clínica;

c)      A etiopatologia do autismo infantil precoce vai passar no decorrer dos anos de uma posição paiscopatológica a uma posição biológica ( genética ou bioquimica), após percorrer uma etapa intermediária de posição funcional;

d)     As suas especificações sobre inteligência, frieza afectiva mostraram falhas.

Esta classificação eti0logica tem grande impacto na prevenção, e aconselhamento genético, assim como no desenvolvimento de uma intervenção farmacológica eficaz.

3. Características e Evolução do Autismo

As pessoas com autismo têm três grandes grupos de perturbações. Segundo Lorna Wing (Wing & Gould, 1979), a tríade de perturbações no autismo manifesta-se em três domínios:

Domínio Social: o desenvolvimento social é perturbado, diferente dos padrões habituais, especialmente o desenvolvimento interpessoal. A criança com autismo pode isolar-se mas também pode interagir de forma estranha, fora dos padrões habituais.

Domínio da linguagem e comunicação: a comunicação, tanto verbal como não verbal é deficiente e desviada dos padrões habituais. A linguagem pode ter desvios semânticos e pragmáticos. Muitas pessoas com autismo ( estima-se que cerca de 50%) não desenvolvem linguagem durante toda a vida.

Domínio do pensamento e do comportamento: rigidez do pensamento e do comportamento, fraca imaginação social, atraso intelectual e ausência de jogo imaginativo.

De acordo com Leo Kanner (1943) o autista apresenta as seguintes características:

– Um profundo afastamento autista;

– Um desejo autista pela conservação da semelhança;

– Uma boa capacidade de memorização mecânica;

– Expressão inteligente e ausente;

– Mutismo ou linguagem sem intenção comunicativa efectiva;

– Hipersensibilidade aos estímulos;

– Relação estranha e obsessiva com os objectos;

Posteriormente mencionou a ecolália- fala de papagaio linguagem extremamente literal, uso estranho da negativa, inversão pronominal e outras perturbações da linguagem (Kanner,J.,1946).

Hans Asperger (1946), publica um artigo “Die Autistischen Psychopathen im Kindesalter, no qual descreveu um grupo de crianças com características muito semelhantes às de Kanner, chamando igualmente autismo ao síndrome, tendo percebido que partilhavam traços fundamentais com as crianças autistas.

Embora as características dos indivíduos fossem semelhantes havia um grupo reconhecido por Asperger com níveis de inteligência e linguagem superiores, assim estes tinham síndrome de Asperger, tendo sido Lorna Wing que depois dos Anos noventa sublinhou a importância das observações de Asperger.

As crianças com síndrome de Asperger são ermitãs: “Se eventualmente uma pessoa é companhia, duas são uma multidão”.

Alguns gostavam de ter amigos mas não saem como interagir socialmente: A alternância do “dá-cá-toma-lá na relação com os outros é-lhes difícil. Não entendem como as outras crianças podem retirar prazer de brincadeiras mais ou menos violentas com contacto físico próximo, como também não percebem que o comum dos mortais não partilhe o fascínio por retroescavadoras, comboios, contentores de lixo ou outros temas de tremendo interesse e importância.

Lorna Wing (1981) definiu a síndrome de Asperger com seis critérios de diagnóstico:

1-      A linguagem é correcta mas estéreotipada;

2-      Ao nível da comunicação não verbal apresentam: voz monótona, pouca expressão facial, gestos inadequados;

3-      No que diz respeito à interacção social, esta não é recíproca e revelam falta de empatia;

4-       Resistem à mudança e preferem actividades repetitivas;

5-       Ao nível da coordenação motora apresentam uma postura incorrecta, movimentos desastrados e por vezes estereotipias;

6-       Possuem uma boa memória mecânica e os seus interesses são especiais e circunscritos.

Hoje a síndrome de Asperger tem uma classificação separada do autismo no DSM-IV- TR.

A criança autista vive num mundo à parte criado por ela mesma, sendo geralmente incapaz de estabelecer relações pessoais normais, contudo, podem revelar uma ligação muito forte com os objectos.

Revelam ainda alterações a nível da linguagem padrões de fala inteligíveis e outras nem sequer falam, apresentam ainda dificuldades nas relações interpessoais e manifestam comportamentos estereotipados e repetitivos. Podem ainda apresentar características como: inibição motora, mutismo, dificuldade em suportar mudanças de ambiente, recusa em procurar ou aceitar carinhos, gosto pela imitação de sons ou de movimentos, dificuldade em estabelecer amizades, entre outras.

Sendo uma doença com um desenvolvimento gradual, os bebes autistas não demonstram grande interesse pelo contacto, não sorriem, não olham para os pais, podem apresentar problemas ao nível da alimentação, do choro e do sono. Um bebé com autismo apresenta determinadas características diferentes dos outros bebés da sua idade. Pode mostrar indiferença pelas pessoas e pelo ambiente, pode ter medo de objectos.

Quando começa a gatinhar pode fazer movimentos repetitivos ( bater palmas, rodar objectos, mover a cabeça de um lado para o outro). Ao brincar, não utiliza o jogo social nem o jogo do faz de conta. Ou seja, não interage com os outros, pode não dar resposta aos desafios ou às brincadeiras que lhe fazem. Não utiliza os brinquedos na sua função própria.

Aos 12 meses poderão demonstrar o interesse obsessivo por determinados objectos, revelam comportamentos estereotipados e repetitivos e até atrasos ao nível da locomoção.

Geralmente, só a partir dos 24 meses é que se podem constatar dificuldades de comunicação verbal e não – verbal.

Depois dos 2 anos de idade a criança autista tem tendência a isolar-se, a utilizar padrões repetitivos de linguagem, a inverter os componentes das frases, a não brincar normalmente etc.

Dos 2 aos 5 anos de idade o comportamento do autista tende a tornar-se mais óbvio. A criança não fala ou ao falar utiliza a ecolália ou inverte os pronomes. Há crianças que falam correctamente mas não utilizam a linguagem na sua função comunicativa, continuando a mostrar problemas na interacção social e nos interesses.

Regra geral, dos seis anos de idade até à adolescência os sintomas mais perturbadores podem diminuir, contudo o problema não desaparece totalmente.

Os adolescentes juntam às características do autismo os problemas da adolescência. Podem melhorar as relações sociais e o comportamento ou, pelo contrário, podem voltar a fazer birras, mostrar auto-agressividade ou agressividade para com as outras pessoas.

Os adultos com autismo tendem a ficar mais estáveis se são mais competentes, com QI baixo, continuam a mostrar características de autismo e não conseguem viver com independência.

N o estado adulto, o autista não se consegue integrar na vida normal achando que o mundo é uma ameaça para si- fechando-se no seu mundo, pois sente maior segurança. Por vezes neste período, o autista pode regredir e até voltar a mostrar comportamentos infantis.

As pessoas idosas com autismo têm os problemas de saúde das pessoas idosas acrescidos das dificuldades de os comunicarem. Os problemas de comportamentos podem por isso sofrem um agravamento. Além disso, perdem muitas vezes o gosto pelo exercício físico e têm menor motivação para praticar desporto, o que não contribui para melhorar a sua qualidade de vida. Por outro lado, o seu comportamento pode tender a estabilizar-se com a idade.

4. Diagnóstico

Para que se tenha um bom prognóstico com relação ao tratamento é necessária a realização de um diagnóstico precoce. Um diagnóstico seguro pode ser realizado antes de a criança completar dois anos de idade, desde que alguns aspectos clínicos não sejam desprezados. As crianças autistas normalmente têm histórico de infecções e alto consumo de antibióticos nos primeiros anos de vida, As fezes podem ter aparência mucosa, e de coloração variante, entre amarelo, esverdeado e avermelhado, e podem ter odor de mofo. Intensa flatulência. Apresentam sinais característicos de alergias, como orelhas, olhos inchados, cílios compridos. Embora se alimentem bem podem apresentar aspecto de subnutrição. (wikipédia)

De acordo com o DSM-IV(2004) os critérios de diagnóstico para a Perturbação Autística são os seguintes:

A. Um total de seis (ou mais) itens de (1) e 2 e (3), com pelo menos dois de (1), e um de (2) e de (3).

(1) Défice qualitativo na interacção social, manifestado pelo menos por duas das seguintes características:

(a)    Acentuado défice no uso de múltiplos comportamentos não verbais, tais como contacto ocular, expressão facial, postura corporal e gestos reguladores da interacção social;

(b)   Incapacidade para desenvolver relações com os companheiros, adequadas ao nível de desenvolvimento;

(c)    ausência da tendência espontânea para partilhar com os outros prazeres, interesses ou objectivos(por exemplo, não mostrar, trazer ou indicar objectos de interesses);

(d)   falta de reciprocidade social ou emocional;

(2)   défices qualitativos na comunicação, manifestados pelo menos por uma das seguintes características:

(a)    atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem oral (não acompanhada de tentativas para compensar através de modos alternativos de comunicação, tais como gestos ou mímica);

nos sujeitos com um discurso adequado, uma acentuada incapacidade na competência para iniciar ou manter uma conversa com os outros;

(b)   uso estereotipado ou repetitivo da linguagem idiossincrática;

(c)    ausência de jogo realista espontâneo, variado, ou de jogo social imitativo adequado ao nível de desenvolvimento;

(3) padrões de comportamento, interesses e actividades restritos, repetitivos e estereotipados, que se manifestam pelo menos por uma das seguintes características:

(a)    preocupação absorvente por 1 ou mais padrões estereotipados e restritivos de interesses que resultam anormais, quer na intensidade quer no seu objectivo;

(b)   adesão, aparentemente inflexível , a rotinas ou rituais específicos, não funcionais;

(c)    maneirismos motores estereotipados e repetitivos (por exemplo, sacudir ou rodar as mãos ou dedos ou movimentos complexos de todo o corpo);

(d)   preocupação persistente com partes de objectos.

B. Atraso ou funcionamento anormal em pelo menos uma das seguintes áreas, com início antes dos 3 anos de idade: 1) interacção social, 2) linguagem usada na comunicação social, 3) jogo simbólico ou imaginativo,

C. A perturbação não é melhor explicada pela presença de uma Perturbação de Rett ou Perturbação Degenerativa da Segunda Infância.

4.1. Diagnóstico Diferencial

De acordo com o DSM-IV (2004) no desenvolvimento normal pode observar-se períodos de regressão do desenvolvimento, mas não tão graves ou prolongados como na Perturbação Autística. Pode-se diferenciar a Perturbação Autística das outras Perturbações Globais do desenvolvimento.

A Perturbação de Rett difere da Perturbação Autística, na taxa de prevalência entre os sexos e no padrão dos défices. A Perturbação de Rett foi diagnosticada apenas nas mulheres, enquanto a Perturbação Autística ocorre ais frequente nos homens. Na Perturbação de Rett, há u padrão característico de desaceleração do crescimento do craniano, perda de competências manuais intencionais previamente adquiridas, aparecimento de marcha ou movimentos do tronco mal coordenados.

Particularmente durante os anos pré-escolares, os sujeitos com Perturbação de Rett pode apresentar dificuldades de interacção social semelhantes às observadas na Perturbação Autística, mas tendem a ser transitórias. A Perturbação Autística difere da Perturbação Desintegrativa da Segunda infância, que tem u padrão distinto de grave regressão evolutiva e aparece pelo menos após 2 anos de desenvolvimento normal. Na Perturbação Autística  as anomalias do desenvolvimento são normalmente observadas no primeiro ano de vida. Quando não há informação sobre o desenvolvimento nos primeiros anos ou quando não é possível documentar o período requerido de desenvolvimento normal, poderá ser feito o diagnóstico de Perturbação Autística.  A Perturbação de Asperger não é diagnosticada se estiverem preenchidos os critérios de diagnóstico para a Perturbação Autística.

A Esquizofrenia com início na infância aparece após anos de desenvolvimento normal ou próximo do normal. Pode ser feito u diagnóstico adicional de Esquizofrenia se u sujeito com Perturbação Autística desenvolver características da Esquizofrenia, com uma activa sintomática de delírios ou de alucinações com duração de pelo menos um mês. No Mutismo Selectivo, a criança revela aptidões de comunicação adequadas ainda que só o faça em certos contextos e não tem um défice grave na interacção social nem os padrões restritivos de comportamento associados com a Perturbação Autística.

Na Perturbação da Linguagem Expressiva e na Perturbação Mista da Linguagem Receptiva-Expressiva, há um défice na linguagem, mas este não está associado à presença de  incapacidade qualitativa de interacção social nem a padrões de comportamento limitados, repetitivos e estéreotipados. Algumas vezes é difícil deterninar se se justifica um diagnóstico adicional de Perturbação Autística num sujeito com DeficiÊncia Mental, especialente se a Deficência Mental for grave ou profunda. O diagnóstico adicional de Perturbação Autística está reservado para situações em que há défices qualitativos na aptidões sociais e comunicativas e em que estejam presentes características comportamentais específicas de Perturbação Autística. As estereotipias motoras são características da Perturbação Autística.

Não se coloca um diagnóstico adicional de Perturbação de Movimentos Estereotipados quando as estereotipias são melhor explicadas como parte do quadro clínico da Perturbação Autística. Os sintomas de hiperactividade e de falta de atenção são frequentes na Perturbação Autística, mas o diagnóstico de Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção não se faz se estiver presente uma Perturbação Autística.

5. Tratamento

Até então, não existe nenhum tratamento específico ou curativo para o Autismo. Os tratamentos existentes podem dividir-se em farmacológicos e psicopedagógicos

Todos os tratamentos farmacológicos são sintomáticos. São inúmeros os fármacos que têm sido utilizados e o manejo desta penosa condição, não existindo nenhum que seja aceite unanimemente ou útil em todos os pacientes.

O Haloperidol (J.Rogel-Ortiz, 2005)pode ser útil para diminuir a impulsividade e agressividade, assim como as estereotipias e a labilidade  emocional, no entanto é necessário estar-se atento aos seus efeitos contra laterais ( temperamentais e tardios como disquinésias, sedação excessiva, etc). É aconselhada a sua utilização por períodos curtos ou de forma intermitente. Outros casos reportados mostram a igual eficácia da Risperidona, mas com menos efeitos secundários, motivo pelo qual é o fármaco mais utilizado actualmente.

Existem relatos que assinalam uma elevada actividade dos opióides endógenos no sistema nervoso central dos autistas., motivando o uso do opiáceo antagonista, Naltrexona, tendo sido pobres os resultados obtidos, e já não sendo utilizado actualmente.

Afirma-se de igual forma que existem alterações no metabolismo serotoninérgico, com elevação significativa da concentração de serotonina. Isto «deu lugar ao uso de inibidores da recaptação de serotonina como fluxoxamina e sertralina, com bons resultados na diminuição de pensamentos repetitivos, conduta ritualista e inadaptada, tal como na diminuição da agressividade, para além da melhoria no uso da linguagem e da conduta social, no entanto verificando-se um efeito benéfico, este pode ser apenas transitório.

A Terapia Psicopedagógica assume um papel central no tratamento de autistas. O procedimento mais aceite actualmente é o inicio do tratamento o mais cedo possível, um tratamento intensivo e do tipo multimodal: terapia da linguagem, programas de socialização, estimulação sensorial múltipla (auditiva, visual, somestésica), terapia recreativa etc.

Infelizmente, nesta área surgiram bastantes ideias revestidas de uma base pseudocientíficas, que apenas aportaram confusão e falsas expectativas nos familiares destes pacientes (hipoterapia, golfinoterapia, aromaterapia, musicoterapia, dieta sem glúten etc.)

6. Prognóstico

O prognóstico face a esta perturbação é muito variável, existindo pacientes que arrastam consigo durante toda a vida um défice intelectual, com alterações profundas da linguagem e da conduta, mas também está demonstrado que uma importante percentagem de pacientes pode melhorar de forma notória desenvolvendo capacidades académicas, inclusivamente de nível universitário. Alguns autores assinalam que 10 a 20% dos podem ter esta evolução.

A maioria das investigações associa assinala como factores associados a um melhor prognóstico os seguintes: o desenvolvimento de alguma linguagem comunicativa antes dos 6 anos, a presença de atraso mental ligeiro ou ausência, nas provas de inteligência verbal, e a intervenção terapêutica o mais precocemente possível e intensiva.

A importância de realizar um diagnóstico o mais cedo possível ( e o tratamento) deve fazer com que os médicos que estabelecem o primeiro contacto com estes pacientes(médicos de família, familiares, pediatras)  conheçam bem esta efemeridade e perante uma suspeita clínica encaminhem o paciente de imediato para um especialista com experiência e com um conhecimento mais amplo desta patologia. (Ortiz, 2005)

7. Conclusão

Nos últimos anos, diferentes formas e filosofias de abordagem, compreensão e tratamento surgiram desde que o autismo foi descrito pelo primeira vez em 1943. O presente trabalho procura fazer uma abordagem ao autismo, destacando as principais etiologias, bem como mais sumariamente meios de diagnóstico e intervenção mais utilizados e proeminentes face à patologia.

As diversas linhas de investigação actuais parecem sugerir uma etiologia multifactorial do autismo, com intervenção tanto de factores genéticos e ambientais, como de factores psicológicos e biológicos.

Por sua vez o diagnóstico do autismo parece assentar em três princípios-chave: limitação da interacção social, da comunicação e a nível cognitivo. No entanto, existe um conjunto de comportamentos e situações que podem ser concomitantes com a Perturbação Autísta, dificultando o diagnóstico. Assim, é importante proceder a uma avaliação rigorosa de cada indivíduo, discernindo o essencial do acessório, pelo que, o diagnóstico diferencial pode ser fulcral.

As abordagens educacionais actualmente realizadas têm a finalidade de melhorar o desempenho, as capacidades individuais e desenvolver a adaptação dessas crianças ao ambiente.

Para isso, diferentes procedimentos são adoptados, como a terapia comportamental, a reeducação dos pais para a aceitação dos défices da criança, terapias de diálogo e linguagem, programas psicoeducacionais, musicoterapia, entre outros.

Assiste-se a uma variedade de programas de integração que permitem que os autistas vivam em comunidade, uns em tempo parcial, outros em tempo inteiro, sendo propostos vários modelos, de acordo com as especificidades de cada criança, e com os modelos teóricos defendidos.

8. Bibliografia

Association, A. P. (2004). DSM-IV TR. Climepsi.

Gupta, A. R., & State, M. W. (Maio de 2006). Autismo: Genética. Revista Brasileira de Psiquiatria , vol.28.

J.Rogel-Ortiz, F. (Mar./Abr. de 2005). Autism. Gaceta médica de México , 141.

Ortiz, F. J. (março de 2005). Autismo. gaceta médica de México , pp. 1,2.

Santos, I. M. (14 de Novembro de 2009). O Portal dos Psicólogos. Psicologia , pp. 4-10.

wikipédia. (s.d.). Autismo. Obtido em 3 de Janeiro de 2010, de Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo

 

 

 

 

 

 

 


One Response to Autismo

  1. alda pinto says:

    Muito bem desenvolvido. Obrigada

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